E se?
todos os excessos da vida adulta e o dia que eu ganhei da terapeuta
ERRATA: o texto não é da Stela, sinto muito enganar vocês de novo!!
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É como se tudo pudesse acontecer e eu tivesse que prever uma versão nova pra cada um desses cenários hipotéticos. E convenhamos, quem não ta desdobrando mil cenários na própria cabeça, transcendeu. E se chover? E se eu perder o voo? E se tiver muito cheio? E se eu não gostar das pessoas? E se as pessoas não gostarem de mim? E se eu for uma fraude? E se eu fracassar?
Eu vou me perdendo dentro da minha cabeça e me transformando em versões que eu gosto pouco. Represando sentimentos e transformando pequenas paranóias em grandes maluquices.
E juro que se eu pensar bem direitinho, sei que pode ser tudo uma grande loucura mesmo, mas pensar e sentir, né? É uma ponte com uma engenharia tão complicada que acho que nunca vou ter alta da análise. Antes de qualquer coisa, é UM CÁLCULO e de conta eu fugi minha vida todinha!!!!!!!
Se eu ganhasse uma moeda para todas as vezes que eu falei ou pensei que ‘racionalmente isso é muito claro pra mim’ eu não precisaria trabalhar nunca mais na minha vida. O plano de aposentadoria aos 32 anos estaria garantido. Eu estaria, nesse exato momento, num cenário bem The White Lotus e, como eu sou boa de gastar, não ía ta passando uma vontadinha sequer. Eu ía ser minha própria versão do Neymar, cheia de parça…
Mas é o que é. E a única coisa que a gente tem é o agora. Todos os planos hipotéticos, tão só dentro da nossa cabeça e, via de regra, são sempre piores do que vai rolar de fato. É a frase da Ana Suy que pode ter passado pelo teu feed: “a realidade é um alívio”.
E eu sempre tento fazer esse cálculo: quanto custa a gente se distanciar o suficiente das nossas próprias situações pra, finalmente, conseguir conectar o nosso racional com o emocional? Claro que não tem uma cifra, mas sim um investimento imenso de energia, pelo menos pra mim. E nem to falando que fazer essa conexão exija energia a ponto de causar sofrimento, mas nem sempre essa sinapse é tão automática assim.
É aquele exercício de meditação de praticamente sair do próprio corpo e tratar a vida como um rio. Ele vai continuar correndo, não importa o que queira segurá-lo. Você enxerga de cima e quando tem um obstáculo, você só lembra que a água vai continuar passando, contornando ou lidando com ele, mas vai passar. E se distanciar é entender que vamos continuar apesar do que nos segura, de um jeito ou de outro. Pelo mesmo caminho ou por um diferente. O que não dá é pra represar ou afundar e deixar a vida passar por cima.
Ficar presa dentro da própria cabeça é represar um rio depois de uma baita chuva. A força é praticamente incontrolável e aquela pedaço de madeira - que pode ser uma comprinha gostosa na Amazon enquanto você assiste a novela - talvez diminua a velocidade por algumas horas, mas não barra. Todo mundo que é rio, transborda em algum momento. E se eu transbordar e virar aquela versão lá que eu abomino?
E se eu quiser tanto silenciar esse pensamento, que eu encho minha vida de outras coisas? Vou fazer o que? Usar os pacotinhos do Mercado Livre de boia? Surfar na caixa de pizza que eu pedi porque tava meio entediada? E se eu to tentando fazer a ponte entre o racional e o emocional justamente com esse monte de coisa - física ou não - que eu to acumulando?
E aí, veio o choque. Eu vivo minha vida como se eu pudesse ser tudo. Como-se-eu-pudesse-ser-tudo, quando na verdade, eu só posso ser eu.
E eu to tentando entender isso ainda. Foi um corte lacaniano que eu to digerindo há alguns meses já. To tentando assimilar que eu não vou ser a grande fraude que eu imagino que eu posso ser. Eu só posso ser o que eu sou. E parece o papo de coach de ‘ser-sua-melhor-versão’, ou um Déborah Sequismo da minha parte de ‘ser o que consegue ser’, mas é meio libertador saber que todos os ‘e se’ da cabeça dificilmente vão se concretizar porque tudo que você vai ser é o que você pode ser e não o que a sua imaginação infinita desdobra.
Não adianta todo o plano na sua cabeça com todos os cenários possíveis, até porque, nunca conheci ninguém que roteirizou uma situação e ela saiu exatamente como na própria cabeça. Sempre tem um pra falar o que não tava previsto e mudar todo o curso da história. Encher a vida de coisas pra camuflar tudo o que você não suporte mais pensar, não é nem fuga, é convite pro Serasa e disso eu entendo.
Eu falei na terapia que era difícil acessar tudo isso. É novo pra mim silenciar e lidar bem com o vácuo, viver no vazio e não querer mobiliar o buraco. Eu tenho medo de querer preencher minha vida o tempo todo, tenho medo de, de novo, cair no excesso pra não deixar esse mesmo vazio me perseguir. E se eu repetisse os mesmos erros? E se desse tudo errado?
Eu gasto muito tempo pensando nisso. Pensando que eu não posso virar uma versão de mim que eu não quero ser enquanto eu tento entender que eu só sou o que eu posso ser.
E ela disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo: “mas você já vive no excesso, excesso de e se?”.
Pra não dar uma cadeirada nela, eu mesma dei o corte lacaniano num fôlego único: “vamos-ficar-com-isso”. Levantei e fui embora. Não tinha mais nada pra falar. Quis encarar como uma vitória. Ela riu.
Era melhor sair mesmo antes que eu começasse apensar ‘e se eu for a paciente mala dela?’.
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Gostou? Manda pra quem ta com a cabeça de vespeiro que nem eu :)
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E pelo amor, esse não é um texto sobre meritocracia. Não é um texto sobre conquistas, privilégios e oportunidades. É só um lembrete que as cabeças também precisam de freios.




